MEU TEMPO NO IBA

1 06 2015

Disseram-me, e não sei quando, que se alguém não escreve, não faz história. Na verdade, há tantas coisas que se perdem no tempo que, fossem elas registradas poderiam no mínimo ajudar as futuras gerações. Hoje, ainda que não se faça conscientemente, tudo o que se escreve fica registrado. As redes sociais são uma prova disso. Porém, mergulhar no passado pode nos ajudar a manter vivas as experiências boas e, de certa forma poder anular os efeitos das más experiências simplesmente deixando-as onde devem estar, no passado. Por isso me arrisco a dar um passeio rápido lá pelos anos 70. Na verdade cheguei na área no ano de 1969. Vinha de uma experiência marcante de sete anos de intenso envolvimento com evangelismo. Fazíamos parte da Igreja Presbiteriana Independente de Bauru. Cada um desses amados “jovens Livres do Senhor” como éramos chamados, vislumbrava a possibilidade de ser “oficialmente” útil na obra ministerial. Não sei o que se passava na mente dos demais, porém para mim, era o começo de algo que marcaria para sempre minha vida. E para lá fomos.

Enquanto escrevo, lembro! Enquanto lembro, sinto meu coração palpitar de saudades! Saudades de um tempo que não volta mais. Saudades do nosso cantinho. Nossos aposentos masculinos ficavam lá no fundo, longe dos aposentos femininos. Graças a Deus! A quadra de esportes era como um palco de exibição do que nós jamais seríamos, atletas. Mas nos jogos, algumas vezes matinais, recebíamos os aplausos de nossas companheiras de sala de aula. As nossas aulas, algumas carregadas de heresias como a aula de Filosofia e Grego. Que doideira… Aliás, a história da igreja está tão cheia de heresias que, nem mesmo os professores de filosofia ou grego conseguem separar o que é certo do que é errado. Num desses momentos, a gente acaba por deixar de acreditar em Deus até mesmo estudando sobre ele. E o ex-jogador de futebol? Professor de evangelismo? Oh! meu Deus… quanta árvore cheia de folhas… E as noitadas de “gluco-energan”… garanto que isso ninguém conta… Para poder estudar durante a noite e fazer as provas no dia seguinte, somente turbinado mesmo. E as nossas “experiências” com a força do pensamento positivo. Essa vale a pena citar. Juntávamos alguns alunos no quarto, colocávamos uma cadeira no centro do quarto e um de nós assentado. Quatro de nós tentávamos levantar a cadeira apenas com a ponta dos dedos indicadores e as mãos cruzadas. Resultado, não conseguíamos. Então, fechávamos os olhos e concentrávamos por alguns segundos e ao sinal de alguém levantávamos a cadeira com o que estava assentado nela como se fosse uma folha de papel. Incrível, mas ninguém resistia a brincadeira e a cadeira sempre caia.

Me lembro muito bem do nosso professor de português – O Natanael… Esse sim me fez passar nervoso várias vezes! Interessante era a dupla de “teólogos” amantes de uma boa polêmica – não lembro os nomes. E o garotinho vindo de Assis? James… Preciso contar essa. Não é que o cidadão inventou de usar um produto à base de álcool para aliviar uma certa alergia numa parte sensível do corpo? Podem imaginar a cena? E o nosso imitador do “BÍLLY GRAHAM”? Silas. Esse eu admiro até hoje.

Bom, um tempo de muitos momentos inesquecíveis, como por exemplo quando ocorreu a divisão das águas. Acontecia a “renovação” espiritual da Igreja Presbiteriana… Ruptura, definições de conceitos e tendências teológicas eram postas à prova. Confesso que fiquei decepcionado com o que estava ocorrendo. Eu estava muito absorto em minhas novas descobertas teológicas. Havia uma inquietude dentro de mim que destruía minha fé simples. Acreditem ou não, eu estava sendo violentado na minha metamorphose espiritual. Vinha de experiências pessoais profundas, de uma prática de fé inocente e agora, em meio a descobertas do “por quê” das coisas, ao invés de solidificar essa fé, mesclava com o humanismo, um cristianismo formal e agora uma “renovação” espiritual que mais cheirava protesto do que uma nova revelação. O meu casulo estava sendo rompido pelas lâminas da incerteza, dúvidas e frustração. Não mais existiria IBA. Alguns de nós foram para Cianorte, outros perderam o seu “norte” e alguns se perderam no caminho.

Mas tudo isso fez parte de uma “transformação” que só teria efeito real anos depois. Um ano depois do IBA, fui para um seminário em Minas – Betânia – Foi lá que consegui re-estruturar minhas convicções e concluir meus estudos preliminares.

O IBA foi um capítulo na minha vida. Alí aprendi a ser crítico. Aprendi a ser um “Bereiano”, a não aceitar conceitos sem provas, e conclusões sem experimentos comprovados. Aprendi a ler, a pesquisar, a perguntar e a buscar respostas. Aprendi a viver em equipe e descobri que um “seminário” pode ser uma alavanca para alguns, mas uma âncora para outros. No meu caso, foi uma âncora, mas eu a usei como alavanca para me reerguer e ir em frente.

O IBA deixou marcas, principalmente através de pessoas que seguiram firmes no ministério. É bonito olhar para trás e ver que há uma linha notável de pessoas que ainda conseguem manter a base da fé, da humildade e do conhecimento.

Hoje, apesar de ser um questionador do sistema religioso evangélico, não posso deixar de reconhecer que, um grupo de amigos, irmãos e companheiros que viveram por um curto período de tempo juntos, trazem uma importância tremenda na formação de vidas.

A história conta o que foi no passado, mas os homens da história produzem o futuro. Assim, orgulho-me de ter sido um dos alunos do IBA – INSTITUTO BÍBLICO DE ARAPONGAS.

Roberto Carlos Fernandes


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