PAULO E JESUS

“Mas aos outros digo eu, não o Senhor..” (I Co 7.12). A partir de agora vemos Paulo aplicando os princípios do Reino de Deus. Sua posição diante do mandamento do Senhor foi estabelecida ao submeter-se ao conselho do Senhor descrito no verso 10: “Aos casados, mando não eu, mas o Senhor…”. Agora, toda pastoral tem que estar de acordo com esses princípios, e coerentes com o padrão do reino de Deus tão radicalmente defendido por ele.

Antes de trabalhar essa questão pastoral, gostaria de expor algo com respeito aos conceitos absolutos e relativos do aconselhamento.

Muitas vezes, diante de situações complicadas, o conselheiro enfrenta uma grande dificuldade para aplicar os princípios absolutos do Reino de Deus. Ele não trabalha como mecânico de automóveis ou reformador de casas. Seu trabalho é com pessoas que têm sentimentos, história e estão envolvidas com outras pessoas também.
Normalmente ele se envolve com esses sentimentos e é tentado a ceder diante de pressões sentimentais, familiares e religiosas.

Amor e compaixão

Um dos erros mais graves que se comete, é aconselhar alguém ou casais sem conhecer todas as implicações que aquele conselho pode trazer na vida das pessoas. A falta de amor e de compaixão pode ser determinante nessa hora. Portanto, todo aconselhamento tem que estar recheado da atitude de Jesus e tão presente na vida dos apóstolos, sobretudo de Paulo.

Essa era a diferença na vida de Paulo em contraste com os que ele chamava de “falsos apóstolos”. Paulo era convicto do evangelho que pregava e das implicações dessa pregação na vida dos discípulos.

Todavia, não se pode confundir amor e compaixão com sentimentalismo. O amor pela vida de um filho pode levar um pai a autorizar a amputação das pernas do filho se isso salvá-lo.

A pregação de Paulo era cheia de amor e compaixão, mas era também realística com a vida do homem. Sua pregação consistia em mostrar ao homem seu estado miserável diante de Deus e aplicar o remédio certo que era traduzido como “morte” do velho homem! As expressões, renúncia, cruz, morte, sofrimento, angústia, perseguição, entre outras, fazem parte do que ele chama de “o meu evangelho”. Ser radical em aplicar uma medida mais enérgica não é sinônimo de desamor, o contrário poderia ser visto da mesma forma.

Ao escrever a primeira carta à igreja de Corinto, no capítulo 5 ele usa declarações fortes que, se fossem usadas hoje na maioria da igreja criaria um rebuliço muito grande e teríamos muitos pastores desempregados. Estaria Paulo sendo radical demais ao orientar os líderes daquela igreja a entregar a satanás um de seus membros? Chegou ele ao extremo de sua paciência? Agia ele por impulso ou por capricho? É claro que não! Paulo sabia exatamente o que fazia e o por que fazia. E, não tenho dúvida nenhuma de que tudo isso estava recheado de amor e compaixão.

Princípios absolutos e relativos

Ao aconselharmos alguém devemos ter bem claro quais são os aspectos absolutos, ou seja, aquilo que está estabelecido por Deus e não pode ser mudado. Paulo ensinou que esse conjunto de princípios e mandamentos fazia parte do conselho de Deus. Mas, que princípios são esses? Relativamente ao tema que estamos desenvolvendo, divórcio e recasamento, os princípios são os seguintes:Que os casados não se separem. Porém, se separarem, que fiquem sem casar.

O que vem a seguir, tem que estar relacionado a esse princípio. Não podemos tratar como relativo o que é absoluto, mas temos que nos por de acordo nas coisas relativas para termos o absoluto.

O contexto em que Paulo escreve é a igreja de Corinto. Essa carta, inclusive, era uma resposta a várias questões que os irmãos trouxeram a Paulo. Apesar de ser uma igreja gentílica e cheia de problemas, cremos que lá houvesse casais vivendo de forma correta e dentro do padrão do Reino de Deus. Casais de discípulos. Entretanto, é óbvio que havia casais mistos, crentes com descrentes. Esse detalhe não invalidava o casamento. Era apenas um fator circunstancial do casal.

Aqui temos uma situação específica que Paulo administra como um sábio pastor. Ele toma como base o princípio absoluto (vs. 10) e ajusta a problemática de um casal misto e estabelece um princípio relativo encima de uma condicional: “Se…”.

“Mas aos outros digo eu, não o Senhor: Se algum irmão tem mulher descrente, e ela consente em habitar com ele, não a deixe. E se alguma mulher tem marido descrente, e ele consente em habitar com ela, não o deixe. Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido; de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos” – (I Co 7.12-14).

1. O fato de ser um casal misto, isso não impede a convivência. Aliás, o cônjuge convertido deve ser o maior interessado em que isso ocorra. Paulo é explicito ao recomendar ao cônjuge crente: “não o deixe”.

2. O Senhor abençoa essa relação e santifica os participantes daquele casamento.
“Mas, se o descrente se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão, ou irmã, não esta sujeito à servidão; mas Deus chamou-nos para a paz. Porque, de onde sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? ou, de onde sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?” – (I Co 7.15-16).

1. A convivência com um descrente pode ser tão angustiante e inviável que não há outra saída senão a separação. Essa separação, todavia, nunca deve ser provocada pelo cônjuge crente. Infelizmente muitos casais colhem frutos de erros cometidos no passado e por não haver da parte do incrédulo uma submissão total ao Senhor, faz com que o cônjuge crente viva uma verdadeira escravidão.

2. Paulo deixa claro que “se” o incrédulo se apartar, o cônjuge crente deve apartar-se. Vejo isso como uma verdadeira benção para o irmão ou a irmã no que se refere a ficar livre para servir ao Senhor com liberdade, cuidar dos filhos, viver em honra e santidade diante de Deus e dos homens. Pesa sobre essa separação o princípio absoluto do Senhor: “que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido”.

3. É possível que, nessa separação o cônjuge incrédulo venha a se converter e, arrependido, queira voltar para seu cônjuge. Aqui não podemos aplicar as determinações de Moisés em Deuteronômio 24. Lá Moisés afirma que se uma mulher for repudiada pelo marido, ela não poderá voltar para ele caso case com outro e divorcie ou fique viúva. Esse aspecto já foi esclarecido anteriormente.

4. Paulo não está tratando de divórcio segundo os princípios do Reino de Deus. Mesmo que as leis atuais tenham processado um divórcio moderno, para o cônjuge crente isso deve ser encarado como uma separação.
Mas, em que casos é possível haver separação?

A meu ver, a separação não é apenas física. Há muitos casais que vivem juntos mas há muita violência, promiscuidade e desrespeito. Infelizmente muitos cônjuges, a maioria homens, que vivem egoisticamente com suas esposas e trazem sofrimento para a família. Algumas mulheres são violentadas por esses homens, algumas contraem doenças incuráveis por causa de relações promíscuas, outras sofrem abusos físicos e morais por homens descontrolados emocionalmente e elas vivem debaixo de uma “servidão” que as fazem ser tratadas como escravas, objeto sexual ou “sacos de pancada”, além de ser um péssimo exemplo para os filhos. Todavia, quando casaram, a maioria delas acreditava que viveria em paz o resto de suas vidas. Nesses casos, a separação é aconselhável, desde que o incrédulo não aceite viver uma vida decente, de honra e fidelidade. Muitos homens já deixaram suas esposas mas continuam impondo sobre elas uma servidão e criando um inferno dentro de casa. Nesses casos, é minha opinião que as esposas têm total liberdade para apartar-se desde que entendam que devem “ficar sem casar ou que se reconciliem com seus cônjuges se isso for possível”. Mas não ficam livres para casar de novo!

Paulo logo em seguida afirma:

“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor” – (I Co 7.39).

Paulo fecha o tema deixando bem claro que não há espaço para divórcio e recasamento, sobretudo para os discípulos. Assim como Deus odeia o repúdio. Repudiar não é o mesmo que divorciar. Divorciar é a anulação do casamento de acordo com a lei que Moisés trouxe ao povo de Israel. Repúdio é o abandono, é deixar de lado a convivência. O repúdio, não só é uma expressão de dureza de coração como uma abertura para o adultério. Todas as recomendações do Senhor e as aplicações pastorais de Paulo e demais apóstolos são pela preservação da união, da santidade no casamento e da reconciliação.

Próximo Capítulo: Jesus e o Perdão

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